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Autor de 'Olhos coloridos' conta que música surgiu de caso de racismo

Canção é considerada um símbolo do orgulho negro no Brasil.
Macau foi preso injustamente quando participava de uma exposição.
Cristina BoeckelDo G1 Rio
Uma das canções mais conhecidas da música brasileira, “Olhos coloridos”, que ficou célebre na voz de Sandra de Sá no começo dos anos 1980, é fruto de uma experiência pela qual muitos negros brasileiros ainda sofrem: o racismo. Macau, autor da música, a compôs na década de 1970, após ser preso injustamente pela Polícia Militar do Rio de Janeiro em uma exposição de escolas públicas no Estádio de Remo da Lagoa. A canção é considerada um símbolo do orgulho negro no Brasil.
A verdade é que você (todo brasileiro) tem sangue crioulo.
 
Tem cabelo duro, sarará crioulo..."
"Olhos Coloridos"
Macau era então morador da Cruzada São Sebastião, no Leblon, na Zona Sul do Rio, onde muitos moradores tinham origem na Favela da Praia do Pinto, na mesma região, que foi destruída por um incêndio em 1969. Como o álbum que havia gravado com os amigos não foi bem nas vendas e não foi bem divulgado, Macau entrou em depressão. Na tentativa de animá-lo, um amigo o levou para ver uma exposição escolar no Estádio de Remo da Lagoa para tentar animá-lo.
Com roupas simples e cabelo black, foi interpelado por um policial militar e convidado a passar por uma averiguação. Dentro de uma sala, foi ofendido por um sargento. “Ele me levou para um escritório. E tinha um sargento, baixinho, que quando eu cheguei ele ficou rindo e disse: ‘eu estou vendo você lá de baixo, você não é fácil, hein? Você ri demais, fala demais’”, conta Macau.
As ofensas continuaram e se estenderam ao cabelo, a roupa que ele vestia e ao local onde ele morava, quando Macau alegou, em sua defesa, que era morador da região.
Macau e Paulo Bagunça, que deu o apelido com o qual ficou conhecido (Foto: Macau/ Arquivo pessoal)Macau e Paulo Bagunça, que deu o apelido
com o qual ficou conhecido
(Foto: Macau/ Arquivo pessoal)
“Ele disse: ‘Você mora naquela lama ali, cheia de bandido’. Eu disse que bandido não, ali não tem bandido. Eles são moradores da Cruzada São Sebastião. E ele: ‘É isso mesmo. Tudo pobre, tudo favelado, essa coisa toda, tudo negro’. Eu disse que ele estava com preconceito, com discriminação. E falei ‘O sangue que corre na sua veia, corre na minha veia também. É vermelho. Você está com preconceito’,” relata o compositor.
'Alma ferida'
Depois disso, Macau foi preso e colocado em um camburão às 15h. O veículo circulou por toda a cidade, vários suspeitos de crime foram colocados ali dentro e, no fim das contas, ele só chegou à delegacia à 1h do dia seguinte. “Era uma escuridão, eu sendo esmagado de gente, eu me senti dentro de um porão. Eu fiquei muito mal, fragmentado, com a alma ferida”.
Ele e todos os homens que estavam aglomerados foram colocados em uma cela apertada, onde Macau passou a noite, ao lado de um vaso sanitário, agachado por causa da falta de espaço.
Apreensivos por ele ter sido levado pela PM, Macau foi encontrado só no dia seguinte, pelo padre Bruno Trombetta, da Pastoral Penal da Igreja Católica. Quando foi libertado, o padre fez menção de levá-lo para casa, mas ele não quis. “Eu fiquei tão revoltado que queria explodir. Eu falei: ‘Eu vou para o mar, quero ficar sozinho’”, conta Macau.
Nascimento da canção
Diante do mar do Leblon, Macau chorou e, colocando as ideias em ordem, compôs a letra que se tornou um um desabafo. “Eu comecei a olhar o mar e veio, de uma forma única, o texto dos ‘Olhos coloridos’. Eu comecei a chorar, veio na minha mente todo esse texto. Eu corri para casa, peguei o violão e comecei a tocar a canção”, conta o cantor.
A música foi gravada por Macau em uma fita em 74, mas ficou desconhecida até chegar às mãos de Sandra de Sá, por meio de um produtor. Em 1982, ela gravou "Olhos Coloridos", que estourou nas rádios.
“Não é à toa que ela é chamada de rainha da soul music brasileira. Ela tem raça. Toda vez que eu a escuto cantando a minha música, eu também fico emocionado. É sempre novo, é sempre uma luz”, elogia Macau, que acredita que a música não teria o mesmo peso se fosse gravada por ele.
Macau ao lado de Sandra de Sá, a intérprete que ajudou a fazer de Olhos coloridos um sucesso (Foto: Macau/ Arquivo pessoal)Macau ao lado de Sandra de Sá, a intérprete que ajudou a fazer de Olhos coloridos um sucesso (Foto: Macau/ Arquivo pessoal)
Sandra, que define a sua relação com Macau como algo “de sentimento”, acredita que "Olhos Coloridos" é mais do que uma música que fala de negritude. Para a intérprete, ela pertence a todos.
“É um hino do povo brasileiro. Afinal de contas, quem é quem no povo brasileiro? Quem pode se definir como uma coisa, e não outra?”, reflete Sandra.
Para Luciana Xavier, jornalista e pesquisadora de música brasileira, a força da mensagem da canção é um dos segredos de seu sucesso para que seja cantada e ecoe até hoje. “É uma canção repetida à exaustão porque tem uma mensagem muito forte, que afirma a identidade negra por meio da valorização da beleza do ‘cabelo duro, sarará’".
Segundo Luciana, ao mesmo tempo a música mobiliza e denuncia o racismo, avisando que a mesma pessoa que ri do negro também ‘tem sangue crioulo’, que é o maior paradoxo brasileiro. "Creio que é por isso que é sucesso e se mantém tão atual: é uma música que prega a conscientização, é uma denúncia contra o racismo, mas também é um elogio à mestiçagem, que faz a canção funcionar em vários contextos e ser adotada por vários grupos”, afirma Luciana.
Consciência Negra
Macau acredita que o racismo ainda está presente na sociedade brasileira. Porém, segundo ele, as diversas iniciativas de inserção dos negros na sociedade, como cotas, os ajudam a ascender. Oferecer acesso a uma educação de qualidade, na opinião do cantor, é uma forma de acabar com o preconceito. Ele também destaca que as redes sociais e a liberdade de expressão permitem uma maior reflexão e organização para combater o problema.
No Dia da Consciência Negra, Macau participará de um evento que durará toda a tarde com vários artistas na Biblioteca Parque Estadual, no Centro. Com a música e outras formas de arte, eles discutirão o papel do negro na sociedade.
Começo da carreira
O começo da carreira de Macau foi na Paróquia dos Santos Anjos, onde começou a tocar. Depois, participou da banda Paulo Bagunça e a Tropa Maldita, que gravou um LP em 1973.
O apelido de Macau surgiu nessa época, graças ao amigo Paulo Bagunça, que morreu em agosto deste ano. Nascido Osvaldo Rui da Costa, a escolha do apelido foi por causa dos olhos apertados quando ri que, segundo Paulo, o fariam ficar parecido com um chinês. Daí, o nome da antiga colônia portuguesa na Ásia.
SERVIÇO:
O Dia da Consciência Negra na Biblioteca
Horário: 13h às 18h
Local: Avenida Presidente Vargas, 1261 – Centro – Rio de Janeiro
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Macau participará de eventos pelo Dia da Consciência Negra (Foto: Cristina Boeckel/ G1)Macau participará de eventos pelo Dia da Consciência Negra (Foto: Cristina Boeckel/ G1)
G1

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